Restaurando o SER
O processo de restauração do “ser” é muito parecido com a de peças sacras, antigas, artísticas e valiosas como as existentes nas cidades históricas de Minas Gerais como Ouro Preto, Mariana e Congonhas, onde predominam obras do Aleijadinho…

O processo começa pela análise e estudo do histórico da peça, tentando entender quantos processos de mudanças ela experimentou desde sua original versão até os dias de hoje.

A parte prática propriamente dita consiste pela gradativa remoção de cada camada introduzida em cada momento histórico, em cada situação política, em cada interpretação dos valores, cores, misturas e amplificações estéticas decorrentes das necessidades, inquietudes que de certa forma retratam cada momento religioso, social, material ou espiritual.

É como pisar em ovos…

Temos que identificar e ir destruindo, demolindo, limpando camada por camada de tintas, de óleo, de detalhes, que foram sendo depositados na superfície da peça…

É como desnudar a obra, seguindo a ordem inversa a que foram sendo colocadas ou acrescentadas, até chegarmos finalmente à versão original do artista, tal e qual se apresentou séculos atrás, que reflitam toda a singeleza, veracidade, originalidade e esplendor da criação.

O “ser” assim vai tomando forma e cor naturais, com o processo de interiorização de cada um de nós, uma espécie de purificação interna que é um movimento secreto, singular, e não um processo intelectual de nossas mentes.

Quanto mais avançamos nesta direção, mais enfraquecemos nosso ego, retirando nossas inquietudes, medos, ambição, egoísmos e desassossegos.

Cada camada retirada, que representa nossa personalidade em cada um destes momentos, pode ser entendida como nossos mecanismos de sobrevivência, de defesa e combate, que nada tem a ver com a nossa verdadeira identidade preservada por essas camadas superficiais e saturadas através de nossas emoções, sentimentos, pensamentos, sensações e teses intelectuais.

Como ocorre na restauração física de peças sacras, esse trabalho solitário e silencioso encerra em si mesmo um imenso trabalho interior, onde passo a passo vou aniquilando as marcas e vícios da nossa percepção externa.

Realizado com simplicidade, é um processo próprio, singular, solitário e secreto de cada um de nós, cujo resultado aparece no seu devido tempo sob a forma de verdadeira autenticidade, tranquilidade, bem-aventurança, revelando finalmente os verdadeiros motivos de nossa existência, desnudando as verdadeiras razões de nosso propósito de vida aqui neste planeta, aquilo que verdadeiramente viemos transformar…

Enquanto não chegarmos ao âmago do nosso projeto de vida, funcionamos meio tortos, como um avião sem asas, um peixe fora d’água, um felino sem garras, um barco sem velas, na medida em que não estamos em consonância com o nosso verdadeiro papel, com nossa verdadeira missão.

É importante sentirmos que não existem coincidências…

Apesar de pensar o contrário, estamos no lugar certo, na família certa, na religião certa, na hora certa, para justamente termos a oportunidade ímpar de nos conhecermos melhor, de expressar nosso jeito genuíno de ser, conforme originalmente projetado…

Enquanto não removermos a última camada de emoções e preceitos introjetados dentro de nós, não poderemos funcionar 100%, pois estamos num modo de operação ainda diferente do que o que nos foi confiado…

O caminho rumo ao autoconhecimento nos revela a missão e fortalece nossos genuínos recursos e habilidades ocultas, que fomos embalsamando nestas múltiplas camadas que ainda precisam ser removidas.

Leila Silveira | Psicóloga, Coordenadora do curso de Psicologia Funorte e Diretora da TransformaSH Ltda
Délcio Fortes | Engenheiro, Professor universitário e Consultor/sócio da TransformaSH Ltda

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