Somos todos ansiosos…

Na verdade herdamos de nossos antepassados esta herança atávica, desenvolvida pelo homem primitivo ainda na idade da pedra, onde éramos “caças” invés de caçadores…

Diante da ferocidade dos predadores, dos cataclismas terrestres, das inundações, terremotos, da necessidade de sobrevivência em meio a tantos desafios externos e dispondo de armas rudimentares e parcos recursos, os nossos ancestrais desenvolveram um tipo positivo de ansiedade baseado no binômio “luta – fuga”, aprimorado ao longo dos séculos e das eras civilizatórias, que acabaram por garantir a sobrevivência da espécie humana até os dias atuais…

O mecanismo da ansiedade primitiva disparado por um sinal de alerta, por uma ameaça concreta, desenvolvia um sentimento de medo, raiva, temor, aflição que provocava no organismo um estado de prontidão, caracterizado por um batimento mais acelerado do ritmo cardíaco, respiração alterada, maior fluxo de sangue nos músculos, preparando o corpo para a luta ou para correr…

Antigamente os homens eram valorizados pela sua capacidade de guerrear, de conquistar, de se sobrepor física e militarmente sobre os demais…

Os tempos atuais são outros, os desafios bem mais sutis, as habilidades bem mais elaboradas, embora conservemos em nossa memória, em nosso pensamento, em nossos comportamentos, em nosso âmago, as idéias e estratégias primitivas que não se aplicam mais de forma ampla e generalizada ao contexto contemporâneo de perigos e dificuldades…

Embora continuemos a experimentar situações hostis, embora no nosso íntimo tenhamos a mesma velha vontade de “partir prá briga” ou “sumir de vez”, somos obrigados a controlar nossos impulsos, e o que é pior, deixar de agir, deixar de ter uma reação que gostaríamos de ter…

Porém só o fato de termos pensado e principalmente sentido algum desconforto e ameaça, é suficiente para disparar todos aqueles antigos mecanismos de defesa e ataque de nosso organismo, cuja energia acaba por não ser utilizada, ficando acumulada em algum ponto do nosso corpo.

Mais cedo ou mais tarde, de tanto repetirmos em vão tais procedimentos automáticos e frustrantes, de tanto ensaiar uma reação objetiva que nunca acontece, de tanto abafarmos o que realmente sentimos, de tanto reprimir o que gostaríamos de “por prá fora”, acabamos somatizando estas emoções em nosso organismo sob a forma nefasta do estresse, manifestado por uma azia, um cansaço, irritação, uma úlcera, uma dor de cabeça crônica, dores musculares, uma infecção intestinal…

A causa raiz moderna de nossa ansiedade é claro deve ser procurada nas nossas memórias de infância, nas relações familiares, nas nossas crenças, no nosso jeito de lidar com as dificuldades, com as pessoas, com os nossos limites…

Quanto mais perfeccionista, quanto mais supersticioso, quanto mais apegado a ilusões, quanto mais me deixo tornar vítima de minhas próprias fantasias, quanto mais catastrófico e negativo são meus pensamentos, maior a probabilidade de me tornar um ansioso crônico, cheio de manias obsessivas como as de excesso de limpeza, exageros de higiene, overdose de segurança, gula, tiques nervosos, gagueiras, sudorese…

A primeira providencia para iniciar a cura é identificarmos e tomarmos consciência desses mecanismos “compensatórios” que utilizamos para esconder nossos verdadeiros temores…

A segunda é aceitar o que de fato estamos sentindo, por mais ridículo ou indigesto que isto seja…

A terceira é entender que aceitar os fatos não é se sujeitar passivamente a eles… Eu posso e devo tentar estabelecer uma estratégia de ação que não seja autodestrutiva e que vai me fazer bem…

O ser humano possui inúmeros recursos e possibilidades potenciais e a cada momento e situação é preciso adotar a atitude certa baseada no bom senso, na criatividade, na escolha do que vai nos proporcionar maior prazer…

Somos seres em busca, somos seres em melhoria contínua, e o segredo é religarmos o tempo todo na realidade objetiva que nos cerca, no aqui e agora.

Deixe a ansiedade prá trás!

Cuide bem de você!

Leila Silveira | Psicóloga, Coordenadora do curso de Psicologia Funorte e Diretora da TransformaSH Ltda
Délcio Fortes | Engenheiro, Professor universitário e Consultor/sócio da TransformaSH Ltda

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